Povos indígenas

Mairu Karajá foi pioneiro na abertura das portas da universidade para indígenas no Tocantins

Mestre em Direito, doutorando na França e defensor dos direitos indígenas, jovem liderança do povo Karajá deixa legado de luta, conhecimento e valorização cultural.

Yasmim Rodrigues/Bastidores do Tocantins 

A morte de Mairu Hakuwi Kuady Karajá, aos 30 anos, causou grande comoção entre lideranças indígenas, acadêmicos e instituições de ensino no Brasil e no exterior. Natural do Tocantins, Mairu foi reconhecido por sua trajetória pioneira na educação superior e por sua atuação em defesa dos direitos dos povos originários.

Em nota de pesar, a Universidade Federal do Tocantins (UFT) destacou que Mairu integrou a primeira turma do curso de Relações Internacionais da instituição, tornando-se uma das principais referências indígenas dentro do ambiente universitário e abrindo caminho para novas gerações de estudantes indígenas no estado.

Segundo a universidade, sua passagem pela UFT foi marcada pelo compromisso com a transformação social, pela defesa da permanência estudantil e pela luta por políticas de diversidade e saúde mental para os povos originários. Mairu também atuou no Programa de Educação Tutorial – Conexões de Saberes Indígenas (PET Indígena) e no Fórum dos Estudantes Indígenas.

Sua formação acadêmica resultou no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) intitulado “INY DEÉ RENY: O Direito Indígena na Perspectiva da Constituição Federal e das Organizações Internacionais – ONU e OIT”, pesquisa que analisou os desafios da garantia dos direitos indígenas no Brasil e destacou o protagonismo de importantes lideranças originárias.

Mairu era mestre em Direito pela Universidade de Brasília (UnB) e realizava doutorado na Universidade Paris 8 Vincennes Saint-Denis, na França. Sua trajetória de vida foi marcada pela superação. Ainda jovem, trabalhou em diferentes atividades para custear os estudos e transformar a educação em ferramenta de mudança social para seu povo.

A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) também lamentou a morte do pesquisador e destacou seu papel como defensor da cultura Iny-Karajá. Entre suas contribuições, está a criação do projeto Inỹribè – Fortalecimento e Revitalização da Cultura Inỹ, iniciativa voltada à preservação da língua Karajá e à transmissão dos saberes ancestrais para as novas gerações.

A Embaixada da França no Brasil também prestou homenagem ao pesquisador, ressaltando sua dedicação ao diálogo intercultural e à valorização das línguas indígenas. Em nota, a representação diplomática afirmou que Mairu inspirou parceiros acadêmicos e culturais tanto no Brasil quanto na Europa, deixando um legado em defesa da justiça, da diversidade cultural e dos conhecimentos tradicionais.

Reconhecido como uma das mais promissoras lideranças indígenas de sua geração, Mairu sempre defendeu que o acesso à educação deveria caminhar junto com o fortalecimento da identidade cultural dos povos originários.

Em uma declaração concedida anos atrás, resumiu sua visão sobre o futuro das comunidades indígenas: “Eu sonho com um dia em que os jovens das nossas comunidades alcançarão seus objetivos. A cultura é adaptável e não um museu cultural. O tempo muda e os objetivos também.”

Sua partida deixa uma lacuna irreparável, mas seu legado permanecerá vivo na luta pelos direitos indígenas, na produção acadêmica e na inspiração que continuará oferecendo às futuras gerações de povos originários do Brasil.

Bastidores do Tocantins

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