Meio Ambiente

Fronteira Cerrado: o avanço do agronegócio entre o progresso econômico e a destruição ambiental

Enquanto impulsiona a economia e movimenta trilhões de reais por ano, o agronegócio segue pressionando o Cerrado — bioma vital para as águas do país — e reacendendo o debate sobre desenvolvimento sustentável no Brasil.

Yasmim Rodrigues/Bastidores do Tocantins 

Apontado como motor do crescimento econômico brasileiro, o agronegócio é, ao mesmo tempo, visto como vilão ambiental por provocar desmatamento, concentração de renda e exclusão de comunidades tradicionais. O Cerrado, savana mais biodiversa do planeta e berço das principais bacias hidrográficas do Brasil, é hoje o epicentro desse embate entre desenvolvimento e preservação.

De acordo com dados do MapBiomas, quase 48% da vegetação nativa do Cerrado já foi suprimida ao longo da história, sendo que 24% do território está ocupado por atividades agropecuárias. O avanço é ainda mais expressivo no Matopiba — região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — responsável por quase metade do bioma ainda preservado e onde se concentram as maiores taxas de desmatamento.

Em 2022, o Tribunal Permanente dos Povos (TPP), que reúne mais de 50 movimentos sociais, chegou a condenar formalmente governos e empresas brasileiras e estrangeiras por “ecocídio” do Cerrado, apontando destruição sistemática do ecossistema e expulsão de povos originários e tradicionais.

Carolina MA), 12/10/2025 – Vista do Rio Itapecuru. em meio à vegetação do cerrado, que abastece mais de 50 municípios do Maranhão – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil;

Peso econômico e contradições

Apesar das críticas, o agronegócio tem papel fundamental na balança comercial e na geração de riquezas. Segundo a Esalq/USP, o setor responde, direta ou indiretamente, por até 25% do PIB nacional, ao considerar toda a cadeia produtiva — da plantação ao transporte e à agroindústria.

Somente no primeiro trimestre de 2025, o PIB do agronegócio cresceu 12,2% em relação ao trimestre anterior, impulsionando a economia brasileira. “O agro foi o grande responsável por esse crescimento. É a força da economia do país”, afirmou à época o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro.

No entanto, especialistas alertam que o impacto do agro não pode ser medido apenas em números. Para o economista Danilo Araújo Fernandes, da UFPA, é preciso considerar o custo ambiental e territorial dessa produção. “Não é só o PIB. É preciso avaliar quanto de território se imobiliza e quanta biodiversidade se perde para gerar essa riqueza”, pontuou.

O agro no Matopiba: progresso e impactos

No município de Balsas (MA), um dos polos do Matopiba, o agronegócio transformou o cenário socioeconômico. O presidente do sindicato rural local, Airton Zamingnan, defende que a atividade trouxe emprego, renda e infraestrutura para uma das regiões antes mais pobres do país. “O agronegócio é a oportunidade de levar renda e desenvolvimento para o interior. Sem ele, não haveria alternativas econômicas reais”, afirma.

Mesmo os críticos reconhecem a importância econômica do setor, mas cobram limites e equilíbrio. O agricultor familiar José Carlos dos Santos, morador da zona rural da região, resume o dilema: “O agro tem seu lado destruidor, mas também é o que coloca comida na mesa de muita gente. O que precisamos é de regras para não acabar com o bioma”.

Um modelo financiado pelo Estado

O crescimento do agronegócio brasileiro está diretamente ligado ao apoio estatal. Desde a criação da Embrapa, o país investe pesado em tecnologia para expandir a produção em áreas áridas como o Cerrado. Somam-se a isso incentivos fiscais, como a Lei Kandir, que isenta de ICMS produtos primários voltados à exportação, e os empréstimos subsidiados do Plano Safra, que neste ano atingiram o recorde de R$ 516 bilhões — contra R$ 89 bilhões destinados à agricultura familiar.

Para o economista Gilberto de Souza Marques, também da UFPA, o agro de exportação gera pouco emprego diante do volume de subsídios que recebe. “O Estado financia o grande produtor, enquanto o pequeno agricultor, que abastece o mercado interno, fica com uma fatia muito menor do apoio público”, afirma.

Concentração e poder político

O projeto De Olho nos Ruralistas, que monitora o setor, aponta que a estrutura agrária concentrada do Brasil se reflete no poder político em Brasília. Segundo o coordenador Bruno Bassi, grandes proprietários, que representam apenas 2% das terras agrícolas, controlam cerca de 300 deputados e mais de 50 senadores. “É impossível falar em democracia plena quando há tamanha desigualdade de representação”, observa.

Essa influência também se manifesta em projetos de lei que flexibilizam normas ambientais, como o PL do Licenciamento Ambiental, parcialmente vetado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva após críticas de especialistas e do governo federal.

Governo e o desafio da sustentabilidade

A diretora de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, Iara Bueno Giacomini, defende o diálogo com o setor produtivo. “Não se trata de apontar culpados, mas de mostrar que o próprio negócio está em risco se não houver sustentabilidade”, disse.

O ministério reconhece que o desmatamento do Cerrado ameaça a segurança hídrica nacional, afetando a geração de energia, o abastecimento humano e o próprio agronegócio. Entre as iniciativas em andamento estão o projeto Ecoinvest, que mobilizou R$ 30 bilhões para recuperar pastagens degradadas, e o plano de criação das Áreas Prioritárias para Conservação de Águas do Cerrado (APCACs).

Entre a força e o limite

Na COP30, realizada em Belém (PA), a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) apresentou o setor como parte da solução para os desafios climáticos. “O agro brasileiro é sustentável e tem papel essencial na segurança alimentar mundial”, afirmou o vice-presidente da entidade, Muni Lourenço.

O desafio, no entanto, segue o mesmo: conciliar crescimento econômico com preservação ambiental. O Cerrado — berço das águas e símbolo da diversidade brasileira — segue em disputa, entre a promessa de prosperidade e o risco da exaustão.

Da Redação / Bastidores do Tocantins

Bastidores do Tocantins

Bastidores do Tocantins é um Blog de seres, fazeres e dizeres do estado de Tocantins.

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