Natividade preserva séculos de história e identidade no sudeste do Tocantins
Cidade tombada pelo Iphan abriga ruínas do século XVIII, símbolos de fé, sociabilidade e resistência cultural
Yasmim Rodrigues/Bastidores do Tocantins
Localizada no sudeste do Tocantins, Natividade é uma das cidades mais antigas do estado e guarda um dos mais importantes conjuntos históricos da região Norte do país. Tombada como Patrimônio Histórico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a cidade se destaca pelo casario colonial do século XVIII e por monumentos religiosos e civis que atravessaram gerações.
Entre os principais símbolos está a Ruínas da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, cuja construção teve início por volta de 1741, mas nunca foi concluída. Considerada o cartão-postal de Natividade, a igreja é o local mais visitado e fotografado da cidade. De acordo com o professor, historiador e escritor Watila Misla Bonfim, o templo teria sido a primeira igreja do antigo Arraial de Natividade.
Doutor em História pela Universidade de Brasília (UnB), Watila foi o primeiro pesquisador a registrar de forma sistematizada a história da cidade e de seus monumentos, em tese de doutorado apresentada em 2025. Segundo ele, a devoção à Nossa Senhora do Rosário tem origem no norte de Portugal e teria sido trazida pelos primeiros moradores da região. “A gente acredita que essa foi a primeira santa a chegar ao antigo norte de Goiás”, explica.
O historiador ressalta ainda que a igreja era um importante espaço de convivência social, frequentado por brancos e negros, sendo a maioria composta por negros, escravizados e alforriados. Para ocupar cargos religiosos, no entanto, era necessário não estar em condição de escravidão. “Isso desmistifica a ideia de que era a ‘igreja dos escravos’. Muitos dos frequentadores já eram pessoas alforriadas, e há registros de pessoas brancas participando das atividades religiosas”, afirma.
Segundo Watila, a vida social da população colonial estava fortemente ligada à igreja. Para participar dos cultos, eram exigidas doações em ouro, feitas diretamente pelos fiéis ou, no caso dos escravizados, por seus senhores. Além da religiosidade, o espaço também era local de festas, encontros e sociabilidade, especialmente para a população negra e suas gerações.
Para Simone Camelo, presidente da Associação Comunitária Cultural de Natividade (Asccuna), morar na cidade é um privilégio. Empresária do ramo cultural, ela destaca que Natividade é um espaço vivo, marcado por atividades culturais constantes, e que tem se consolidado como um lugar agradável para viver. “Nasci e fui criada nesse solo sagrado, cheio de histórias e com um povo forte, principal responsável pela preservação da cidade”, afirma.
Simone também ressalta a importância simbólica das ruínas da igreja para a população local. “A beleza e a grandiosidade demonstram sua força. Permanecer de pé ao longo dos séculos e estar acessível a todos dá a sensação de pertencimento. É um lugar que mexe com todos que pisam nesse solo”, completa.
Além das Ruínas da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Natividade abriga outros monumentos históricos de destaque, como a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Natividade (1759), a Igreja de São Benedito, o Prédio da Antiga Cadeia Pública e as Ruínas de São Luís. Estudos arqueológicos indicam que a cidade pode ter surgido antes de 1734, sendo possivelmente a primeira cidade do Tocantins.
“O patrimônio material se mescla ao patrimônio imaterial, transmitido de geração em geração e presente na essência da população tocantinense”, resume o historiador.



