Na COP30, Lula alerta que metas do Acordo de Paris estão longe de serem cumpridas e cobra ação global
Durante a Cúpula do Clima, em Belém, presidente faz apelo a líderes mundiais para fortalecer compromissos ambientais, critica desigualdade no financiamento climático e defende taxação de grandes fortunas.
Yasmim Rodrigues/Bastidores do Tocantins
No encerramento da Cúpula do Clima, realizada nesta sexta-feira, 7, em Belém (PA), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um apelo a líderes mundiais para que renovem o compromisso com o Acordo de Paris, que completa dez anos em 2025. Em um discurso marcado por críticas à lentidão das ações globais, Lula afirmou que o mundo ainda está “distante de atingir o objetivo” de limitar o aquecimento do planeta a 1,5ºC.
“O acordo se baseia no entendimento de que cada país fará o melhor que estiver ao seu alcance. Mas a pergunta que devemos fazer hoje é: estamos realmente fazendo o melhor possível? A resposta é: ainda não”, afirmou o presidente.
Lula alertou que América Latina, Ásia e África estão entre as regiões mais ameaçadas pelos efeitos da mudança climática, com risco de tornarem-se inabitáveis em algumas décadas. O presidente destacou o aumento do nível dos oceanos e o possível desaparecimento de ilhas no Caribe e no Pacífico como consequências diretas da inação global.
“Omitir-se é sentenciar novamente aqueles que já são os condenados da Terra”, declarou.
Brasil quer renovar compromissos e incluir comunidades tradicionais
Segundo Lula, apesar de cem países já terem apresentado suas NDCs, representando 73% das emissões globais, o planeta ainda caminha para um aquecimento médio de 2,5ºC.
“No que depender do Brasil, Belém será o lugar onde renovaremos nosso compromisso com o Acordo de Paris”, afirmou o presidente.
Lula também defendeu que a conferência reconheça o papel fundamental dos territórios indígenas e das comunidades tradicionais na preservação ambiental e mitigação das mudanças climáticas, destacando as políticas de proteção adotadas no Brasil como exemplos a serem seguidos.
Financiamento climático e desigualdade global
Outro ponto central do discurso foi o financiamento climático. Lula mencionou o Mapa do Caminho Baku-Belém, que propõe um novo modelo de cooperação internacional para alcançar a meta de US$ 1,3 trilhão anuais em investimentos destinados à mitigação e adaptação climática.
O presidente criticou o fato de que a maior parte dos recursos disponíveis ainda é oferecida na forma de empréstimos, o que, segundo ele, penaliza países em desenvolvimento.
“Não faz sentido ético ou prático exigir que países pobres paguem juros para combater o aquecimento global. Isso é um financiamento reverso, em que o Sul paga a conta do Norte”, afirmou.
Lula propôs que as nações criem instrumentos de troca de dívida por ações climáticas e defendeu que os investimentos verdes sejam tratados como soluções de desenvolvimento econômico, e não como gastos.
Taxação de grandes fortunas e governança global
Em outro momento, o presidente defendeu a taxação de grandes fortunas e o imposto mínimo sobre corporações multinacionais como mecanismos de arrecadação para o financiamento ambiental.
“O indivíduo pertencente ao 0,1% mais rico do planeta emite, em um único dia, mais carbono do que os 50% mais pobres durante o ano inteiro. É justo que contribuam mais para reparar os danos”, disse Lula, citando dados da Oxfam.
Ele também voltou a defender a criação de um Conselho Global do Clima dentro da Organização das Nações Unidas (ONU), que teria a função de coordenar políticas multilaterais para o enfrentamento da crise ambiental.
“Não há solução para o planeta fora do multilateralismo. A Terra é uma só, e a resposta precisa ser coletiva”, concluiu Lula, recebendo aplausos dos representantes presentes.
Cúpula e COP30 em Belém
A Cúpula do Clima reuniu, ao longo da semana, chefes de Estado, ministros e representantes de mais de 70 países, antecedendo oficialmente a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30). O evento, sediado pela primeira vez na Amazônia, é considerado o mais importante da década em termos de renovação dos compromissos globais ambientais.



