Centro de Direitos Humanos de Cristalândia cobra rigor nas investigações da Fames-19 e denuncia descaso com a fome no Tocantins
Em nota pública, entidade classifica supostos desvios de recursos como crime de “lesa-pátria” e elogia postura íntegra do prefeito de Colinas.
Yasmim Rodrigues/Bastidores do Tocantins
O Centro de Direitos Humanos Dom Heriberto Hermes, sediado em Cristalândia (TO), manifestou “extrema preocupação” com os desdobramentos da Operação Fames-19, deflagrada pela Polícia Federal, que levou ao afastamento do governador do Tocantins, Wanderlei Barbosa, e à revelação de um suposto esquema de desvio de verbas destinadas à compra de cestas básicas durante a pandemia da Covid-19.
Para a entidade, trata-se de um “crime de lesa-pátria e de desumanidade”, diante do contexto em que milhares de famílias tocantinenses ainda enfrentam insegurança alimentar grave. A nota, assinada pelo coordenador do centro, padre Eduardo Lustosa de Alencar, denuncia que os recursos que deveriam garantir comida aos mais vulneráveis foram, supostamente, desviados para fins pessoais e políticos.
“Em nossa atuação, acompanhamos mães diluindo leite para alimentar os filhos, crianças emocionadas ao receberem um pacote de bolacha e até casos extremos, como o suicídio de um adolescente cercado pela pobreza”, lamenta o documento.
Prejuízo milionário aos cofres públicos
De acordo com a Polícia Federal, os contratos investigados somam mais de R$ 97 milhões. Desse total, o prejuízo estimado aos cofres públicos ultrapassa R$ 73 milhões. Os valores eram destinados à aquisição de cestas básicas e frangos congelados durante o auge da crise sanitária, entre os anos de 2020 e 2021.
Crise de confiança nas instituições
O centro também alerta que o Tocantins vive uma sucessão de escândalos políticos, com cassações, inelegibilidades e até afastamento de magistrados, o que “fragiliza a confiança da população nas instituições democráticas”.
Na nota, é citada a célebre frase do jurista Rui Barbosa:
“De tanto ver triunfar as nulidades… o homem chega a desanimar de virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
Pedido de responsabilização exemplar
A entidade exige que todos os envolvidos sejam investigados com rigor, mas com respeito ao contraditório e à ampla defesa. No entanto, destaca a necessidade de penalizações exemplares — administrativas, civis e criminais — para aqueles que forem responsabilizados.
Exemplo de integridade
O Centro de Direitos Humanos ainda fez questão de reconhecer a postura do prefeito de Colinas, Josemar Carlos Kasarin, que, segundo interceptações telefônicas da Polícia Federal, teria se recusado a participar do esquema ao perceber indícios de irregularidades. O gestor foi citado como exemplo de conduta ética diante do caso.
“É fundamental valorizar os bons exemplos, pois é com coerência e dignidade no serviço público que se resgata a esperança no bem comum”, afirma o padre Eduardo.



